Neste conteúdo iremos abordar:
- 1- Transtornos gastrointestinais infantis;
- 2- Desnutrição na criança hospitalizada;
- 3- Importância da nutrição enteral precoce;
- 4- Utilização de dietas oligoméricas em crianças.
Transtornos gastrointestinais infantis
O paciente pediátrico que se encontra internado na UTI pediátrica pode apresentar diferentes alterações em relação ao gasto energético, o que inclui alterações do metabolismo dos macronutrientes, além do aumento da lipólise e proteólise, hiper ou hipoglicemia, dislipidemia e perda da massa e desnutrição.1
Os transtornos gastrointestinais na criança hospitalizada podem ser variados e podem ser, tanto a causa da internação, como também podem acontecer em decorrência do período em que a criança se encontra hospitalizada.
Exemplo disso é um estudo que examinou as reações adversas a medicamentos em pediatria administrados durante o período de hospitalização, através de uma revisão sistemática de estudos prospectivos. Como resultados, os autores demonstraram que o sistema gastrointestinal, juntamente com o sistema nervoso central, foram os sistemas mais afetados pelo uso de fármacos.2
Dessa forma, a seguir serão abordados alguns dos quadros gastrointestinais que podem ser encontrados em pacientes internados na UTI pediátrica:
A diarreia é definida como a eliminação súbita de fezes com conteúdo líquido acima do normal, ainda ocorrendo um aumento no número de evacuações.3
Principalmente quando ocorre de forma crônica, a diarreia pode desencadear quadros como a desidratação e a desnutrição – que podem impactar de forma negativa no crescimento pondero-estatural e intelectual da criança – além de aumentar o risco de infecções sistêmicas, tempo de hospitalização e mortalidade.3,4
Alguns dos fatores que podem causar diarreia em pacientes internados na UTI são a utilização de antibióticos (pois alteram a microbiota intestinal), infecção enteropatogênica e resposta fisiológica alterada.5
Outro transtorno gastrointestinal comum é a distensão abdominal, que pode ser causada pela utilização de antiácidos e/ou antibióticos, além de infusão muito rápida e uso de fórmulas hipertônicas e/ou com alto teor de gorduras.6
Desnutrição na criança hospitalizada
É importante lembrar que por diferentes fatores, o paciente, mesmo que eutrófico na admissão hospitalar, apresenta risco de perda de peso e mesmo de desnutrição durante seu período de internação na UTI.7
Alguns destes fatores são:8
Importância da nutrição enteral precoce
Sabe-se que uma terapia intensiva bem-sucedida está intimamente relacionada ao rápido diagnóstico, bem como da rápida decisão sobre as intervenções necessárias. Da mesma forma, uma adequada terapia nutricional precoce se faz necessária para qualquer indivíduo internado na UTI e torna-se ainda mais essencial em pacientes pediátricos.
Isso porque a infância é caracterizada como um período de intenso crescimento, no qual os efeitos do não-cumprimento das necessidades nutricionais aparecem de forma mais grave e rápida e podem impactar no desenvolvimento físico e mental.8
Além disso, crianças hospitalizadas apresentam um maior risco nutricional (quando comparada a crianças não-hospitalizadas), em decorrência das alterações no metabolismo, desencadeadas pelo estresse, o que resultam em um aumento na taxa metabólica basal e do catabolismo proteico.8
Assim, a terapia nutricional (enteral ou parenteral) deve ser iniciada o quanto antes e implementada a partir da adequada avaliação nutricional do paciente, com o objetivo de reduzir possíveis desfechos negativos da desnutrição.8
A alimentação via enteral pode ser considerada quando a criança apresentar as seguintes condições:10
As diretrizes elaboradas pela American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN) recomendam que a nutrição enteral (NE) deve ser iniciada de 24 a 48 horas, se o tubo digestivo estiver viável e se o paciente se apresentar hemodinamicamente estável.9
Tão importante quanto o início precoce da nutrição enteral, é a escolha da fórmula que será utilizada. Para isso, deve-se considerar os seguintes aspectos:8
Utilização de dietas oligoméricas em crianças
Estudos apontam que fórmulas enterais oligoméricas podem ser melhor digeridas quando comparadas a fórmulas poliméricas, o que contribui para melhorar a tolerância, bem como a entrega de nutrientes, principalmente em crianças com problemas gastrointestinais com alterações na absorção e digestão.12
Assim, esse tipo de fórmula pode trazer os seguintes benefícios ao paciente pediátrico crítico:13
Além disso, um estudo feito com crianças internadas na UTI, que visou comparar os efeitos da administração de fórmula enteral polimérica x fórmula enteral oligomérica com 100% de soro do leite hidrolisado, bem como a evolução desses pacientes. Como resultado, os pesquisadores apontaram que a fórmula oligomérica resultou em: 12
Outro estudo utilizou Peptamen® Junior, fórmula oligomérica com 100% de soro do leite hidrolisado com o objetivo de avaliar a tolerância gastrointestinal em 136 crianças com doenças complexas. Os pesquisadores verificaram que o uso desse tipo de fórmula foi bem tolerado pelos pacientes da amostra, havendo ainda uma melhora no Índice de Massa Corpórea (IMC) em 88,3% das crianças.14
Por fim, os estudos indicam que a utilização de fórmulas que contenham proteínas do soro do leite, quando comparadas a fórmulas que utilizam a caseína como fonte proteica, apresenta algumas vantagens, tais como:13
Dessa forma, nota-se que a utilização de fórmulas oligoméricas ajuda a evitar ou reverter de forma mais rápida a desnutrição, bem como auxiliam no controle de transtornos gastrointestinais do paciente pediátrico, tais como a diarreia e a intolerância gástrica.
Referências bibliográficas
Referências Bibliográficas: 1. Skillman HE, Wischmeyer PE. Nutrition therapy in critically ill infants and children. JPEN. 2008;32(5):520-534. 2.Santos DB, Coelho HLL. Reações adversas a medicamentos em pediatria: uma revisão sistemática de estudos prospectivos. Rev. Bras. Saúde Mater. Infant. 2004; 4(4):341-9. 3.Lopez FA, Campos Júnior D. Tratado de Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria. São Paulo: Manole; 2007. 4. Oliveira LA, Prudente LO, Messias MM, Bandeira JR, Curado PF. Relação entre diarreia infantil e hospitalização por desidratação. Rev. Soc. Bras. Clin Med. 2018;16(3):157-9. 5.Zaman MK, Chin KF, Rai V, Majid HA. Fiber and prebiotic supplementation in enteral nutrition: a systematic review and meta-analysis. World J Gastroenterol 2015 May 7; 21(17): 5372-5381. 6. Leite HP, Junior MT. Nutrição Enteral. Atheneu. Disponível em https://www. researchgate.net/profile/Heitor-Leite/ publication/272020397_Nutricao_Enteral/links/54d8b5ed0cf25013d03ec9b8/NutricaoEnteral.pdf. Acesso em Outubro/22.7.Joffe A, Anton N, Lequier L, Vandermeer B, Tjosvold L, Larsen L, Hartling L. Nutritional support for critically ill children. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(5):CD005144. 8.Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Suporte Nutricional da Sociedade Brasileira de Pediatria. 2ª edição. 2020. 9.Meireles GCLA, Gomes ACV, Olinto EOS, Barreto MR, Batista IGS. Nutrição enteral precoce em paciente crítico pediátrico: evolução da conduta nutricional e desfecho clínico. Brazilian Journal of Health Review. 2021; 4(1): 1603-1619. 10.Koletzko S. Progress of Enteral Feeding Practice over Time: Moving from Energy Supply to Patient- and Disease-Adapted Formulations. Nestlé Nutr Workshop Ser Pediatr Program. 2010;66:41-54. 11.Protocolos de Terapia Enteral e Parenteral do HGV. Comissão Multiprofissional de Terapia Nutricional. Teresina 2012. 12.Ibrahim H, Mansour M, El Gendy YG. Peptide-based formula versus standardbased polymeric formula for critically ill children: is it superior for patients’ tolerance? Arch Med Sci. 2020;16(3):592-596. 13.Dra. Maraci Rodrigues. Aula “Como Contribuir para a Tolerância Gástrica e Absorção Intestinal na Nutrição Enteral”. Gastroenterologia Pediátrica Dep. Gastroenterologia HCFMUSP. 14.Leonard M, Caldari M, Mas E, Lambe C, Comte A, Ley D, Peretti N, Borderon C et al. Experience of Using a Semielemental Formula for Home Enteral Nutrition in Children: A Multicenter Cross-sectional Study. JPGN 2019;68: 585–590.
A presença de transtornos gastrointestinais em pacientes internados na UTI pediátrica pode prejudicar a adequada nutrição. Saiba como fórmulas oligoméricas podem contribuir nestes quadros.
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