Neste conteúdo abordaremos:
- O papel das fibras;
- Goma Guar;
- Inulina;
- Colágeno.
A nutrição é um importante determinante da saúde humana por fornecer compostos essenciais para o crescimento, desenvolvimento e manutenção do equilíbrio endógeno.
Entretanto, o estilo de vida moderno e o fácil acesso a alimentos de alta densidade calórica e baixo valor nutricional, resultando em excessos e carências nutricionais, podem impactar o risco de doenças crônicas1,2, visto que o consumo regular de frutas, vegetais e grãos integrais está negativamente correlacionado com o risco de desenvolvimento de doenças crônicas.3
O trato digestório tem uma área estimada de 250 a 400m2 e é considerando o principal conector entre o hospedeiro, entre os fatores ambientais externos e antígenos internos e possui um conjunto de micróbios intestinais (bactérias, archaea, vírus, eucariontes e fungos) coletivamente conhecido como microbiota intestinal, que constitui uma comunidade complexa que interage entre si e com o hospedeiro modulando diversos processos biológicos essenciais para a saúde. 6,7
A disbiose é caracterizada pela diminuição do número de simbiontes, pelo crescimento injustificado de patobiontes e pela perda de diversidade; e os principais fatores responsáveis por essas alterações incluem: 6
Os quadros de disbiose podem ser associados com diferentes patologias intestinais, mas também com desordens extraintestinais, especialmente as de caráter inflamatório como: obesidade, diabetes, desequilíbrios hepáticos e complicações vasculares.6 Isso porque a disbiose pode promover desequilíbrios na integridade da barreira intestinal gerando alterações na expressão das proteínas tight junctions, que resulta no aumento da permeabilidade intestinal com consequente translocação de fragmentos bacterianos (lipopolissacarídeos – LPS e peptídeoglicanos - PG) e toxinas urêmicas do lúmen para a corrente sanguínea – caracterizando o quadro de endotoxemia ou estado de inflamação de baixo grau.6
Pequenas moléculas conhecidas como MAMP (do inglês, microbe-associated molecular pattern) promovem uma resposta pró-inflamatória por se ligar a receptores TLR4, desencadeando a cascata de liberação de moléculas próinflamatórias. Desta forma, sugere-se que um aumento nos níveis circulantes de endotoxinas (particularmente LPS) pode ter um papel principal na inflamação de baixo grau, que são características da obesidade, do diabetes, das doenças hepáticas e das complicações microvasculares, além de contribuir para a hiperreatividade da imunidade inata e adaptativa. 6
A figura 1 sumariza esse mecanismo.6
O papel das fibras
As fibras dietéticas são definidas como carboidratos que são resistentes à ação das enzimas digestivas, não sendo hidrolisados ou absorvidos no intestino delgado e são classificadas como solúveis ou insolúveis.7 As fibras insolúveis (como celulose e hemi-celulose) tem como principal efeito promover aumento do bolo fecal, enquanto as fibras solúveis são fermentadas pelas bactérias da microbiota resultando na formação dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) – acetato, butirato e propionato – caracterizando seu efeito prebiótico.
O aumento na síntese dos AGCC reduz os valores do pH intestinal inibindo o crescimento de bactérias gram-negativas e bactérias produtoras de LPS, proporcionando o ambiente ideal para a manutenção da microbiota saudável. Além disso, esses compostos modulam a expressão das proteínas que compõem as tight junctions, regulando a barreira intestinal e a permeabilidade da membrana.9
Goma Guar parcialmente hidrolisada
Dentre as fibras disponíveis, é importante destacar a goma guar parcialmente hidrolisada (GGPH), uma fibra solúvel não formadora de gel, de baixa viscosidade com importantes efeitos prebióticos que resultam no aumento da abundância de Bi idobacterium e Lactobacillus e nos níveis de AGCC.10,11 O crescimento de Bifidobacterium e Lactobacillus exerce um efeito osmótico no bolo fecal, pois aumenta sua capacidade de retenção de água.10
Além de seu efeito prebiótico, o consumo de goma guar parcialmente hidrolisada tem sido associado com a melhora da motilidade intestinal e da consistência das fezes, além de regularizar a frequência evacuatória e promover cicatrização da mucosa intestinal, conforme demonstrado na tabela 1.
Desta forma, considerando-se os estudos apresentados, o uso de goma guar parcialmente hidrolisada pode ser uma opção segura para a melhora do trânsito intestinal e da consistência das fezes (avaliada pela escala de Bristol) tanto pelo seu efeito probiótico como pela melhora na capacidade de retenção de água, contribuindo para uma adequada frequência evacuatória.
Insulina
A inulina é uma fibra que, quando fermentada pelas bactérias intestinais, produz grandes quantidades de AGCC – e seu consumo por indivíduos com constipação tem sido associado a um aumento na frequência evacuatória.16
Resultados semelhantes foram observados entre indivíduos saudáveis com constipação moderada: o consumo de inulina indicou um aumento de Anaerostipes e Bifidobacterium associado à redução de Bilophila – mudança relacionada a melhores marcadores de qualidade de vida associados à constipação e fezes mais macias.19 Devido a essa modulação da composição da microbiota intestinal, o consumo de inulina por indivíduos pré-diabéticos (15g/d durante 6 meses foi associado com melhora nos níveis de insulina de jejum e HOMA-IR, concomitante à redução no gênero Alistipes (que é abundante em indivíduos diabéticos e está positivamente correlacionado com a inflamação e com a resistência à insulina.20
Outro possível efeito da inulina é a manutenção da integridade da mucosa: a pesquisa experimental de Beisner e col, demonstrou que a suplementação de inulina induziu a produção de α-defensinas pelas células de Paneth, além de melhorar a expressão das proteínas que compõem as tight junctions. 21
Nesse sentido, o consumo de inulina pode ter um importante efeito prebiótico, além de melhorar a frequência evacuatória associada a um possível efeito benéfico na recuperação da mucosa intestinal, corrigindo a hiperpermeabilidade intestinal.
Colágeno
Além das fibras, as proteínas do colágeno também podem ser uma alternativa para a melhora da saúde intestinal. O colágeno é uma das proteínas mais importantes produzidas pelo corpo22 e já foram identificados 28 tipos de colágeno (que se diferem entre si de acordo com a estrutura das cadeias e o posicionamento dos aminoácidos prolina e hidroxiprolina, sendo os de maior relevância destacados na figura 2). Os peptídeos do colágeno, obtidos após a hidrólise enzimática, têm sido utilizados como ingrediente de diferentes suplementos nutricionais.
E dentre esses tipos, merecem destaque o colágeno tipo I (que é o tipo mais comum encontrado na pele e estruturas como cabelo e unhas), o tipo II (presente nas cartilagens) e o tipo III (que está presente na pele, mas também em órgãos como o intestino). Nesse sentido, a suplementação de colágeno pode ser benéfica para a manutenção da saúde cutânea: doses entre 1 e 10g estão associadas com efeitos benéficos nos parâmetros cutâneos por meio de dois mecanismos: (a) a exposição direta dos fibroblastos aos peptídeos após a absorção intestinal aumenta a síntese da matriz extracelular; (b) o colágeno e seus fragmentos podem induzir células Treg que modulam a ação dos macrófagos e suprime a resposta imune contra o colágeno endógeno, melhorando a saúde da pele.24
Além dos efeitos estéticos, a suplementação de colágeno também parece ser benéfica para a saúde intestinal.
Em função desse efeito na estrutura da mucosa, o consumo de 20g/dia de peptídeos do colágeno por mulheres saudáveis com sobrepeso e queixa de constipação durante 8 semanas promoveu uma melhor frequência evacuatória associada com a redução das queixas gastrintestinais:26
Conclusão
A modulação da saúde intestinal é determinante para a manutenção do equilíbrio endógeno e melhora da qualidade de vida e, a nutrição tem papel fundamental nesse sistema. Dentre as diferentes opções disponíveis, as fibras representam uma alternativa segura e eficiente para normalização do trânsito intestinal e manutenção do equilíbrio da microbiota. Já o colágeno surge como uma nova alternativa para contribuir com a integridade da mucosa intestinal e regularização da frequência evacuatória.
Referências bibliográficas
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A modulação da saúde intestinal é determinante para a manutenção do equilíbrio endógeno e melhora da qualidade de vida e, a nutrição tem papel fundamental nesse sistema. Dentre as diferentes opções disponíveis, as fibras representam uma alternativa segura e eficiente para normalização do trânsito intestinal e manutenção do equilíbrio da microbiota. Já o colágeno surge como uma nova alternativa para contribuir com a integridade da mucosa intestinal e regularização da frequência evacuatória. Quer saber mais?
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